10 de mai de 2008

Saudade dói

Publiquei esse texto no meu "about me" do orkut e a reação das pessoas foi de tristeza. Realmente dói sentir saudade, mas o bom é que saudade é na verdade consequência de momentos felizes e inesquecíveis que desfrutamos com alguém. Então, graças à Deus por sentirmos saudades porque tivemos bons momentos que gostamos de lembrar. hehehe

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Morder a língua dói.
Um tombo patinando no gelo dói.
Rancar um fio de cabelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
dói um puxão de orelha,
dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.

Saudade de tocar com a banda.
Saudade dos amigos de infância.
Saudade dos tempos de magistério.
Saudade de suco fresquinho de fruta que
não se encontra aqui.
Saudade do quarto do irmão.
Saudade de Itapecerica da Serra.
Saudade de quem eu fui e já não sou mais.
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida
é a saudade da minha família que amo.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Podia ficar no quarto e eles na sala, sem
nos vermos, mas sabiámos-nos lá.
Podia ir trabalhar ou fazer compras,
mas sabiámos-nos onde.
Podia ficar o dia sem vê-los, eles o dia sem me ver, mas sabiámos-nos amanhã.
Contudo, quando a distância separa, e torna
inacessível, sobra uma saudade que ninguém sabe
como deter.

Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se a primeira pergunta do meu pai quando chega em casa ainda é: Jô?! Cadê sua mãe?
Não saber se ele ainda exagera no desodorante e depois fica espirrando.
Não saber mais o gosto da comida da minha mãe.
Não saber se ela ainda esquece de tirar a roupa do varal quando chove.
Não saber se eles ainda dão aquelas indiretas e retas
quando querem ficar sozinhos no quarto.
Se concertaram a fechadura do quarto deles.
Se meu irmão ainda passa tempo em frente ao espelho olhando os músculos.
Se minha irmã ainda sai de casa correndo sem tomar café.
Se meu pai continua falando sim quando devia dizer não e vice-versa.
Se minha mãe ainda discute com ele por causa disso.
Se meu irmão ainda assiste 5 canais ao mesmo tempo na tv.
Se minha irmã ainda esquece as luzes acessas.
Se meu pai ainda grita: Já chega! – quando alguém está no banho.
Se minha mãe ainda fala: Tô com vontade de comer alguma coisa diferente!
Se eles continuam assistindo tv e comendo juntos na cama dos meus pais.
Se minha mãe ainda arruma a casa durante os comerciais do filme.

Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer
com as novidades que só eles entenderiam, ririam e celebrariam comigo.
Não saber como encontrar tarefas
que lhes cessem o pensamento;
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música;
Não saber como vencer a dor
da distância que deixa tantos buracos.
Saudade é não saber qual tem sido a roupa preferida deles;
É não saber se dormiram bem ou passaram a noite em claro;
É não saber se os melhores amigos ainda são os mesmos.

Saudade que skype, orkut, blog, twitter, webcam, telefone, enfim, nada parece suficiente para saciá-la.
Saudade é não saber os pequenos detalhes, os pensamentos, o cheiro, o aconchego do abraço...
Saudade dói.

(Minha adaptação do texto Saudade do Miguel Falabella.)

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